Coisas
    Nossas coisas nos definem.
    O que compramos, o que usamos, o que mantemos e o que jogamos fora, o que desperdiçamos e o que economizamos: as coisas que nos cercam e seu fluxo através das nossas vidas são indicadores-chave dos tipos de vida que levamos. Ser um afluente cidadão do século XXI significa flutuar em um mar de objetos materiais - cada um com sua própria história e futuro.
    Eles podem estar escondidos dos nossos olhos, mas em termos globais práticos, estas histórias e futuros tendem a ser os aspectos mais importantes das coisas que possuímos. No momento em que rasgamos a embalagem de um novo brinquedo, este brinquedo já é o fim de uma história que envolveu a mineração de metais, o bombeamento de petróleo, a operação em enormes fábricas, o envio em grandes contâineres de carga, a impressão de materiais de embalagem, a compra de publicidade, o posicionamento nas prateleiras das lojas e, finalmente, a compra e posterior utilização do brinquedo. Simplesmente comprar, digamos, um novo laptop, nos conecta com uma teia de atividades que alcança o planeta.
    Uma outra história começa quando jogamos fora nosso velho laptop. Ele pode encontrar um curto caminho ao lixão municipal, onde ele permanecerá, enterrado entre uma montanha de lixo, sendo corroído e lentamente deixando vazar químicos tóxicos por uma centena de anos. Ele poderá, por outro lado, ser enviado para a China, onde suas placas de circuito serão retiradas e trabalhadores mal pagos irão extrair à mão os metais valiosos que eles contém. Partes do corpo de titânio do laptop podem ser vendidas e derretidas para outros propósitos. A maior parte do resto acabará em um depósito de lixo aberto, onde crianças irão selecionar alguns itens das sobras eletrônicas dissecadas.
    O que é verdade para nosso novo laptop é verdade para qualquer produto que comprarmos: o que atualmente compramos da loja, como diz o expert em design sustentável William McDonough em seu livro Cradle to Cradle, é apenas a ponta de um vasto iceberg material, uma pirâmide gigantesca de recursos extraídos e combustível queimado, lixo tóxico e trabalho mal pago. De forma similar, nosso uso do produto apenas marca o começo de um novo ciclo - o produto passará a maior parte de seu tempo decaindo em um lixão em algum lugar. Um isopor pode ficar apenas 15 minutos segurando a comida chinesa que almoçamos, mas pode facilmente ficar uma centena de anos decompondo em um depósito de lixo.
    O primeiro problema com a vida secreta de nossas coisas é que ela esconde de nós as consequências de nossas ações.
    O segundo problema é, a maior parte do tempo, que estas consequências não são legais.
    As montanhas de desperdício que fogem aos nossos olhos quando compramos algo e depois jogamos fora sufocam o planeta com venenos mortais, põe em perigo nossa saúde, arruínam nossos sistemas naturais (navegadores encontraram vastos oceanos de lixo flutuando em águas internacionais), e forçam nossos companheiros humanos a trabalhar em condições nas quais muitos de nós jamais aceitaríamos para nós mesmos. O sistema hoje nos obriga a tomar parte na criação de uma montanha de problemas a cada vez que passamos nossos cartões de crédito.
    Entretanto, as mudanças estão acontecendo: as coisas com as quais convivemos diariamente estão evoluindo, se tornando mais leves para o planeta, mais justas às pessoas em todos os lugares e mais seguras à saúde.
    Já existem produtos na prateleiras e nos showrooms que podem nos ajudar a fazer melhor, nos ajudar a transformar a montanha de desperdício que criamos hoje na pequena colina de amanhã. Nos textos que se seguirão, iremos explorar como encontrar estes produtos verdes e como fazer boas escolhas dizendo respeito a tudo desde roupas a carros, cafés a computadores.
    Mas não precisamos parar aí. Nós sabemos mais do que nunca sobre como encontrar as “vidas ocultas” das coisas. Agora temos acesso a todo tipo de informação sobre os ciclos de vida dos produtos - informações que nos dão a capacidade de fazer escolhas melhores. Mais importante, à medida que a informação sobre tudo desde a toxicidade dos materiais até a eficiência das máquinas se torna pública, aberta, uma nova onda de designers está emergindo, e eles estão se debruçando em transformar impactos montanhosos em travessias ecológicas.
    Uma evolução mais radical no design está a caminho, uma nova geração de coisas está surgindo. Imagine coisas que usem pouquíssima energia, que são feitas sem químicos tóxicos, e que são completamente recicláveis, que não machucam ninguém - nem mesmo a natureza - mas que levam a cabo sua função melhor e que duram mais do que os que temos hoje em dia.
    Estes produtos ainda vivem majoritariamente nas telas de computador de designers de vanguarda, mas isto está mudando rapidamente. E nós temos o poder de fazê-lo mudar ainda mais rapidamente. Nós podemos não ser designers, mas somos todos consumidores do que é desenhado. Ao escolher colocar nosso dinheiro neste ou naquele produto e mostrar que desejamos coisas mais inteligentes - que insistimos na qualidade sem a culpa - nós podemos ajudar a impulsionar esta transformação.
    Nós temos o poder de escolher o mundo no qual vivemos e, através das nossas decisões de compra, nos revelamos esse mundo todos os dias.
 
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